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Havia um homem que tinha tantos filhos, tantos que não havia ninguém na freguesia que não fosse compadre dele e vai a mulher teve mais um filho. Que havia do homem fazer? Foi por esses caminhos fora a ver se encontrava alguém que convidasse para compadre.

Encontrou um pobrezito e perguntou-lhe se queria ser compadre dele.

- Quero; mas tu sabes quem eu sou?

- Eu sei lá; o que eu quero é alguém para padrinho do meu filho? Pois, olha, eu cá sou Deus.

- Já me não serves; porque tu dás a riqueza a uns e a pobreza a outros.

Foi mais adiante; e encontrou uma pobre e perguntou-lhe se queria ser comadre dele.

- Quero; mas sabes tu quem eu sou?

- Não sei.

- Pois, olha, eu cá sou a Morte.

- És tu que me serves, porque tratas a todos por igual.

Fez-se o baptizado e depois disse a Morte ao homem:

- Já que tu me escolheste para comadre, quero-te fazer rico. Tu fazes de médico e vais por essas terras curar doentes; tu entras e se vires que eu estou à cabeceira é sinal que o doente não escapa e escusas de lhe dar remédio; mas se estiver aos pés é porque escapa; mas livra-te de querer curar aqueles a que eu estiver à cabeceira, porque te dou cabo da pele.

Assim foi. O homem ia às casas e se via a comadre à cabeceira dos doentes abanava as orelhas; mas se ela estava aos pés receitava o que lhe parecia. Vejam lá se ele não havia de ganhar fama e patacaria, que era uma coisa por maior! Mas vai uma vez foi a casa dum doente muito rico e a Morte estava à cabeceira; abanou as orelhas; disseram-lhe que lhe davam tantos contos de réis se o livrasse da Morte e ele disse:

- Deixa estar que eu te arranjo, e pega no doente e muda-o com a cabeça para onde estavam os pés e ele escapa.

Quando ia para casa sai-lhe a comadre ao caminho:

- Venho buscar-te por aquela traição que me fizeste.

- Pois, então, deixa-me rezar um padre-nosso antes de morrer.

- Pois reza.

Mas ele rezar; qual rezou! Não rezou nada e a Morte para não faltar à palavra foi-se sem ele.

Um dia o homem encontra a comadre que estava por morta num caminho; e ele lembrou-se do bem que ela lhe tinha feito e disse:

- Minha rica comadrinha, que estás aqui morta; deixa-me rezar-te um padre-nosso por tua alma.

Depois de acabar, a Morte levantou-se e disse:

- Pois já que rezaste o padre-nosso, vem comigo.

O homem era esperto; mas a Morte ainda era mais; pois não era?

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As Duas Rãs

A Zabelinha e a Rana Pipiens

Era uma vez…
Duas rãs, que se encontraram num charco, secando-se este com o calor do verão foram em busca de outro, e achando no caminho um poço disse a Zabelinha:
Parece-me que entremos neste poço. Respondeu-lhe a Rana Pipiens com mais acerto:
Por nada nesta minha vida farei tal coisa; que loucura, porque secando-se nela a água como aconteceu no charco, não poderemos sair.
Zabelinha: Oh, vamos lá Ranazita. Sempre tive o sonho de entrar num poço.
Rana Pipiens: Zabelinha, tu não entendes mas tu já viste o perigo que é entrar num poço?

Zabelinha: Amiga Rana, pensa comigo um poço é diferente é como ir para o lago Baikal, lindooo! Não penses no eventual perigo que poderemos correr mas sim no grande momento que poderemos disfrutar.

Rana Pipiens: Pois, pois! Eu já sei porque queres ir para o poço.

Zabelinha: Claro que sabes, é o meu sonho!

Rana Pipiens: Sonho? Não me faças rir. Diz lá, diz. Tu queres é ir ver os rapazes Rãneiros a fazer Surfwell .

Zabelinha: Amiga achas mesmo! Pronto eu confesso…Mas não digas aos meus pais, eles nunca iriam permitir casar-me com um rãneirio que faça surfwell.

Rana Pipiens: Não te preocupes Zabelinha, eu também tenho que te confeSsar uma coisa…eu também desejo muito ir para o poço mas, estou com vergonha porque está lá um Rãneiro em que estou interessada.

Zabelinha: Apanhei-te! Eu sabia, eu sabia que tu estavas apaixonada por um rãneirozito.

Rana Pipiens: Não me gozes. Eu estou preocupada como tu, meus pais também nunca me permitirão casar, sinto-me tão triste…

Zabelinha: Não fiques triste Ranazita, eu estou contigo. Diz-me quem é o teu apaixonado!

Rana Pipiens: Sim, é o Bende Sande Branquinho!

Zabelinha: Como?

Rana Pipiens: Bende Sande Branquinho!

Zabelinha: Não posso acreditar! Amiga, desculpa informar-te mas estamos apaixonadas pelo mesmo Rãneiro.

Rana Pipiens: Não é verdade, diz-me que não é verdade.

Zabelinha: Sim, é verdade! Porque te foste apaixonar pelo meu Rãneirito, porquê?

Rana Pipiens: Ele não é teu, não tinhas o direito de me fazeres isto.

Zabelinha: Como poderia advinhar que tu te irias apaixonar pelo Bende Sande Branquinho, nós somos amigas mas o Bende será meu.

Rana Pipiens: Isso é o que veremos.

Entretanto as duas amigas ficaram sem se falar durante algumas semanas, tristes por estarem apaixonadas pelo mesmo rãneiro já não iam para o poço juntas. Até que um dia, Bende Sande Branquinho combina com as duas amigas um encontro sem que estas pudessem imaginar que se iriam encontrar as duas. As duas Rãs não dando o braço a torcer começaram a discutir, elas queriam o seu apaixonado e Bende Sande Branquinho não sabia o que fazer, ele também estava indeciso porque também está apaixonado pelas duas. Porém surge uma ideia:

Zabelinha: Tive uma ideia que vai resolver isto de vez.

Rana Pipiens e Bende Sande Branquinho: Diz.

Zabelinha: Amanhã é o campeonato de Surfwel, se o Bende ganhar ele será meu, caso contrário tu (Rana Pipiens) ficarás com ele. Que dizem.

Rana Pipiens: Concordo com a tua ideia.

Bende Sande Branquinho: Alinho!

O grande momento chegou, as duas amigas já aguardavam no poço que o campeonato começasse. Entretanto, Bende Snde Branquinho prepara-se para a grande competição e naturalmente nervoso. Nas bancadas, Zabelinha e Rana Pipiens apoiavam Bende, tanto que gritavam por ele que por momentos as duas Rãs se abraçaram dando apoio a Bende, logo perceberam que não poderiam continuar zangadas por um rãneiro e disseram:

Zabelinha: Como nos fomos zangar por um rãneiro amiga? Risos

Rana Pipiens: É verdade amiga, com tantos Rãneiros tinhamos que nos apaixonar pelo mesmo.

Zabelinha: Olha, acabou a prova e o Bende venceu...

Rana Pipiens: Parabéns ele vai ser teu.

Zabelinha: Risos! Não, nós somos amigas, a nossa amizade é o mais importante..

Rana Pipiens: E agora que dizemos ao Bende Sande Branquinho? Risos
Zabelinha: Os Parabéns pela vitória!
Rana Pipiens: Sim, e explicamos-lhe que a nossa amizade é o mais importante.

As dua Rãs foram até ao lago, comeram um gelado e voltaram a ser as grandes amigas que foram e sempre serão.

FIM

Diana e Madalena

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Quando a poesia encanta a voz das palavras!
A poesia pela voz das alunas do 1º ano de Secretariado da Escola Profissional de Braga.

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Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner

De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
Luís de Camões

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A Neve pôs uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as acções do mundo.

Alberto Caeiro

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Sinto que hoje novamente embarco

Para as grandes aventuras,

Passam no ar palavras obscuras

E o meu desejo canta --- por isso marco

Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo

Aquele mundo

Que eu sonhara e perdera

Espera

O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos

Das mentiras alheias,

Finalmente solitárias,

As minhas mãos estão cheias

De sedativa e de segredos

Como os negros arvoredos

Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando

A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A música no espírito

Baila nas ondas do mar

Passa pela noite

E como o vento passa

Passa a voar

Navega, navega

na alma de quem escutar

É envolvente na atmosfera celeste

É pura alucinante

Esta atracção pelo mar.

Margarida Rosa Romão Mira

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Verdes são os campos
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões

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Vivi entre quatro paredes,
Medrando, temendo, medrosa;
Sofri muito mais por pensar
Que a vida é só isso: paredes.

A vida é o verde, o azul, o vermelho;
A vida é essa grama, esse céu, esse lago.
A vida está além da cidade cinzenta;
Vida é essa beleza,
Vida é natureza.

Rosely T. Sales

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.


Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

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Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

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Com voz nascente a fonte nos convida

A renascermos incessantemente

Na luz do antigo sol nu e recente

E no sussurro da noite primitiva.

Sophia de Mello Breyner Andresen


O meu país sabe as amoras bravas no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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Que mil flores desabrochem. Que mil flores

(outras nenhumas) onde amores fenecem

que mil flores floresçam onde só dores

Florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas

(outras nenhumas não)

onde mil flores com espadas são cortadas

que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam

onde só penas são.

Antes que amores feneçam

que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.

Manuel Alegre

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As imagens transbordam fugitivas

E estamos nus em frente às coisas vivas.

Que presença jamais pode cumprir

O impulso que há em nós, interminável,

De tudo ser e em cada flor florir?

Sophia de Mello Breyner Andresen

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O famoso romance "Os Maias"
fala da vida de Carlos da Maia
médico formado em Coimbra
descendente de uma familia abastada
que já estava afastada e arrasada
tendo apenas seu avô Afonso originário das beiras
a seu lado
Carlos era bem aconselhado por
Ega, um rapaz, bem apresentdo
andava sempre a seu lado.
Devido ao erro de Pedro e Maria Monforte
separaram os seus filhos foi um caso muito forte
Maria Eduarda e Carlos da Maia eram irmãos
sem saberem desse facto conhecem-se e apaixonam-se unindo as mãos
e assim está representado o título d'Os Maias

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Entrevista

Hoje temos como convidado o Sr. Presidente do Curral de Moínas futebol clube. Consta que este presidente suborna os árbitros e jogadores das equipas adversárias.

J -Em primeiro lugar boa noite, vamos começar pelos boatos em que se diz que o Sr. Presidente suborna os árbitros para que estes beneficiem a sua equipa durante os jogos?

R: Não. Isso é totalmente falso. Os árbitros fazem-me um favor e eu retribuo porque não gosto de ficar a dever favores a ninguém.

J - Podemos perguntar-lhe como retribui os favores aos árbitros?

R: Então! Eu ofereço umas viagens, uns carros às vezes umas meninas para eles se divertirem um pouco, nada de extraordinário.

J - O Sr. Presidente já foi várias vezes acusado mas nunca foi preso. Dizem que tem família na P.J. e amigos juízes.

R: Sim é verdade mas não tenho culpa deles serem da polícia.

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Estamos em directo da freguesia de S.Jorgue da Morrinhanha, onde vamos esclarecer alguns boatos alusivos ao clube desportivo e Cultural dos arranca Troços. Para isso temos como nosso convidado o S.Presidente do clube.

J - Sr.Presidente é verdade que dispõem várias meninas aos árbitros para que estes os ajudem a ganhar o campeonato?
R: Não, eu apenas quero manter a imagem do clube. Este clube é um clube onde não existe subornos.

J - Mais uma pergunta! Andam aí uns boatos que o S.Presidente tem uma grande quinta no Algarve às custas deste clube.
R: Não, eu apenas me limito a retirar os fundos lucrativos deste clube para pagar as horas extraordinárias.

J - O que esta a pensar fazer em relação às próximas eleições para eleger o novo presidente do clube?
R: Estou a pensar organizar um jantar para todos os elementos da direcção do clube, mas com uma condição, desde que votem em mim

Entrevista Carlos e Vitor

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Designa a omissão de palavras que podem ser facilmente subentendidas. A sua utilização torna o enunciado mais condensado e incisivo.

As escadas escuras. A porta e a luz, de repente, nos olhos desabituados. A luz forte da rua num dia de Sol.
Augusto Abelaira
Neste exemplo, em cada uma das frases foi omitido o verbo, ficando cada uma delas reduzida aos elementos essenciais. O resultado são três pequenos traços descritivos, sugerindo de forma incisiva o salto abrupto da escuridão para a luz.

Ele adorando a quem lhe parecia,
Na fé todo inflamado assim gritava:
Aos infiéis, Senhor, aos infiéis
E não a mim, que creio o que podeis.
Camões
Neste excerto de Camões, subentende-se facilmente, no 3º verso, a expressão "mandai sofrimentos".

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A Sinestesia consiste numa associação de sensações diferentes na mesma expressão.

—É noite: e, sob o azul morno e calado,
Concebem os jasmins e os corações.
Gomes Leal
Nestes versos a sensção de cor, implícita na palavra "azul", associa-se a uma sensação táctil ("morno") e a uma auditiva ("calado").

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OXIMORO - Aproximação de termos que mutuamente se excluem, numa intensificação do processo da antítese. Exprime um paradoxo e implica uma nova visão das coisas.
Ex.: "O mito é o nada que é tudo" (Fernando Pessoa); "O semelhante sem semelhante" (P. António Vieira). …tornar o fogo frio (Camões)
Perífrase
Consiste em dizer por muitas palavras o que poderia ser dito por poucas.
Nos campos do colérico Mavorte (na guerra)
Bocage
Pleonasmo
Repetição de uma ideia, recorrendo às mesmas palavras ou outras de sentido equivalente.
Vi-os com estes olhos que a terra há-de comer.
Neste exemplo da linguagem quotidiana, a ideia de "ver" é reforçada pela notação concreta "com estes olhos".
Subir para cima, descer para baixo
Zeugma
Um adjectivo ou um verbo ligam-se, simultaneamente, a realidades concretas e abstractas.
Quase sempre o zeugma tem um grande impacto sobre o leitor, devido à associação inesperada de realidades muito diferentes.
Rufino reluzia todo de orgulho e de suor.

Eça de Queirós

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Consiste em atribuir a uma coisa o nome de outra com base numa relação de contiguidade.

o autor pela obra
Comprou um Van Gogh por um milhão de dólares.
o continente pelo conteúdo
Bebeu um copo.
o local de fabrico pelo produto
Bebemos um porto.
o material de que é feito pelo objecto
Gosta de cristais.
o efeito pela causa
Respeitem os meus cabelos brancos.
o físico pelo moral
Ele é uma boa cabeça.
o sinal pela coisa significada
A cruz e a espada engrandeceram Portugal.
Diremos que a METONÍMIA acontece quando se designa uma realidade por meio de um termo referente a outra com a qual está relacionada de uma forma objetiva - por contiguidade (relação com aquilo que a rodeia). Há diversos tipos de metonímia (diz-se o conteúdo pelo continente, ou vice-versa; a causa pelo efeito, ou vice-versa; o possuidor pela coisa possuída, o autor pela obra, etc.).

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Consiste na atribuição aos signos de significados opostos aos que têm na linguagem normal; dizer o contrário do que as palavras em si mesmas significam.

É um recurso muito utilizado, mesmo na linguagem corrente. É o contexto situacional (entoação, mímica) ou verbal que nos indicam que determinada palavra ou expressão deve ser tomada no sentido oposto ao que declara.

– muito prendado, não tem dúvida... – volveu ironicamente a viúva do Capitão-mor.
Camilo Castelo Branco
Neste excerto de Camilo, o próprio narrador nos alerta para a ironia das palavras da viúva. Mas, mesmo sem essa indicação, o contexto em que elas são ditas permitiria ao leitor reconhecer o seu sentido irónico.

Diremos portanto que a IRONIA é o processo retórico pelo qual se significa o contrário do que se diz literalmente, o que por vezes apenas o contexto permite entender.

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A hipérbole é um recurso estilístico muito frequente, tanto na literatura, como na linguagem corrente. Consiste numa expressão exagerada da realidade.

Quando pretendemos destacar determinado aspecto, tendemos a exagerá-lo, de tal modo que os nossos actos comunicativos diários estão repletos de hipérboles: chove a cântaros, rios de lágrimas...

Trazem ferocidade e furor tanto,
Que a vivos medo e a mortos faz espanto.
Camões
Nesta passagem bem conhecida d' Os Lusíadas é fácil sentir o efeito expressivo que a hipérbole pode adquirir. Para enaltecer o valor dos portugueses, põe-se em destaque a ferocidade dos adversários, que é tal que causa espanto aos próprios mortos.

Diremos que a HIPÉRBOLE é o exagero de termos que visa enfatizar a expressão, apresentando imagens e situações que ultrapassam o que se crê ser a realidade.
Ex.: "Chove nela graça tanta, que dá graça à fermosura" (Luís de Camões).

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A hipálage consiste em atribuir uma característica de uma pessoa a uma coisa que com ela se relaciona.

(...) e a Mãe Vilaça, abriu-lhe uns grandes braços amigos cheia de exclamações.
Eça de Queirós
É fácil perceber que o adjectivo "amigos" não se refere propriamente a braços, mas à Mãe Vilaça.

Por outras palavras, a HIPÁLAGE é a atribuição a um ser ou coisa designada de uma qualidade ou ação que pertence a outro ser ou coisa implicada na mesma frase.
Ex.: "Fumava o pensativo cigarro" (Eça de Queirós); "amareladamente os cães parecem lobos" (Cesário Verde).

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Consiste em dispor um conjunto de ideias por ordem crescente ou decrescente.

Toma Inácio o livro nas mãos, lê-o, a princípio com dissabor, pouco depois sem fastio, ultimamente com gosto e dali por diante com fome, com cuidado, com desengano, com devoção, com lágrimas (...).
P. António Vieira
Observe-se, neste excerto de um dos sermões do P. António Vieira, o carácter gradual da apresentação das impressões de leitura de Inácio, desde o desagrado até um grau elevado de agrado.
Em síntese, a GRADAÇÃO é uma enumeração de elementos numa sequência determinada por uma ordem ascendente ou descendente, crescente ou decrescente.
Ex.: "(...) duro, seco, estéril monte (...)" (Luís de Camões).

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Consiste na suavização de realidades chocantes, utilizando, para as descrever, palavras agradáveis.

O velho pai sesudo (...)
Tirar Inês ao mundo determina.
Camões
Neste caso, a decisão de mandar matar Inês de Castro é suavizada pela expressão "tirar ao mundo", menos agressiva.

Na comunicação oral, o recurso a expressões eufémicas é praticamente inevitável, quando temos que nos referir a realidades relacionadas com a morte, a doença, actividades sexuais e outras.
Em suma, o EUFEMISMO é o modo de expressar com decoro conceitos ou ideias cuja expressão franca, não atenuada, seria dura ou desagradável. Os processos que mais frequentemente servem esta suavização do pensamento assentam no recurso a perífrases, sinónimos e metáforas, que obviam à expressão direta e clara do termo ou ideia a evitar

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Substituição da palavra adequada por outra, com base numa comparação implícita (relação de semelhança).

Um exemplo poderá ajudar-nos a compreender melhor a natureza da metáfora.

Aquela mulher é uma baleia.
É fácil perceber que a palavra "baleia" não é o termo mais adequado para caracterizar uma pessoa, visto que "uma mulher não é uma baleia. No entanto, a expressão é linguisticamente aceitável, porque todos os falantes de português percebem sem dificuldade que, dessa maneira, se põe em destaque um traço característico daquela mulher (a gordura). Na verdade, a metáfora assenta sobre uma comparação implícita (Aquela mulher é gorda como uma baleia).

Frequentemente, uma expressão concentra, não um, mas dois ou mais recursos estilísticos. Neste caso, podemos dizer que estamos perante uma metáfora hiperbólica (expressão exagerada).

Os salgueiros mergulham as longas cabeleiras nas águas dos canais.
José Rodrigues Miguéis
Também aqui, a comparação implícita é evidente. Na visão do escritor os ramos pendentes dos salgueiros assemelham-se a longos cabelos caindo para a água. E, mais uma vez, associado à metáfora encontramos o animismo.

Em síntese, a METÁFORA é etimologicamente, "transporte", "mudança", "trânsito": transpõe-se um termo para um campo de significado que lhe é alheio. É definida como "comparação abreviada", na qual o termo comparado (substituído, não nomeado) se identifica com o termo que lhe é semelhante. Diz-se A (não nomeado) por meio de B, supondo-se que entre ambos existe uma relação de similitude.

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Esta figura permite estabelecer uma relação entre duas realidades semelhantes, ligando os dois termos através de um elemento comparativo (como, parece, semelhante, dir-se-ia, ou outro equivalente).

A comparação pode ser simbolicamente representada pela fórmula "A é como B". Dessa maneira, um dos traços característicos de determinada realidade é posto em destaque, por comparação com outra realidade, na qual esse traço é evidente.

Vejamos alguns exemplos.

O cipreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos num ermo (...)
Eça de Queirós
Ao relacionar as duas árvores com "dois amigos num ermo", o autor chama a atenção para aspectos que não eram imediatamente evidentes: uma certa proximidade "afectiva" e o isolamento face ao mundo exterior; a proximidade entre as árvores é reforçada pelo contraste com o afastamento face ao meio envolvente.

E esperaram, imóveis como penedos, de pau ao ombro, engatilhado.
Branquinho da Fonseca
A comparação dos sujeitos com "penedos", acrescenta à ideia de imobilidade as noções de dureza, rigidez, impassibilidade... Desse modo, graças à comparação, a imagem torna-se bem mais sugestiva.

Vi um jardim com árvores escuras
Como uma jaula todo gradeado.
Cesário Verde
Neste caso, a comparação reforça uma nota perturbadora que a expressão inicial introduzira, mas que, por si só, poderia passar despercebida: o adjectivo "escuras" estabelece um certo contraste com a ideia contida no termo "jardim"; essa nota inquietante aparece acentuada pela comparação, que apresenta as árvores como grades.
em síntese a comparação é a confrontação de duas realidades para discernir entre elas semelhanças ou diferenças. O esta

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Assíndeto
Resulta da omissão de conjunções, normalmente coordenativas. Reforça o processo de encadeamento, pondo em evidência os seus elementos.
(...) por toda a câmara, reluziam, cintilavam, refulgiam os escudos de oiro (...)
Eça de Queirós
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos
(...)
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto.
Cesário Verde

Assonância
Repetição dos mesmos sons vocálicos, em situação de sílaba tónica.
Sendo um recurso que incide sobre a matéria fónica, o seu principal efeito é de natureza "musical", como facilmente se percebe pelos exemplos apresentados. Por outro lado, o timbre das vogais pode reforçar o valor significativo das palavras envolvidas.
Por vezes, a assonância combina-se com a aliteração. Isso acontece, por exemplo, no terceiro exemplo, onde encontramos, a par da assonância do "e" a aliteração do "s".

Brilham com brilhos sinistros.
Eugénio de Castro
E as cantilenas de serenos sons amenos.
Eugénio de Castro
Na messe, que enlourece, estremece a quermesse
Eugénio de Castro

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Consiste na invocação de pessoas ausentes, coisas ou ideias.

Estamos perante uma apóstrofe, quando o emissor inicia (ou interrompe) o seu discurso, dirigindo-se a seres imaginários, coisas ou ideias, ou mesmo pessoas, desde que fisicamente ausentes. Em qualquer dos casos estamos perante uma situação que foge à estrita lógica do acto comunicativo, constituindo, por isso, um recurso expressivo. Quando o destinatário do discurso é um ser não humano, uma coisa ou ideia, a apóstrofe é acompanhada de personificação.

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente (...)
Camões
Nestes versos de "Os Lusíadas", o poeta dirige-se às ninfas do Tejo, simples seres imaginários, para lhes solicitar a inspiração épica.

Outro exemplo de apóstrofe, de todos conhecido, são os famosos versos de Pessoa:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal.

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ANIMISMO.
Processo em que se atribui vida a seres inanimados.
Exemplo: "Desce em folhedos tenros a colina" (Camilo Pessanha)
À colina é atribuída uma qualidade própria dos seres humanos (descer).

Personificação ou animismo ou prosopopeia.
Consiste na atribuição de características humanas a seres inanimados ou animais, ou simplesmente na atribuição de características de seres vivos a coisas inanimadas.
As possibilidades expressivas da personificação são ilimitadas, mas todas elas assentam sobre o mesmo fundamento: uma aproximação mais afectiva e menos lógica do mundo envolvente.
Naquela manhã de Março, o vento norte levantou-se mal-humorado.
António Botto
O humor (bom ou mau) é específico dos seres humanos. Caracterizando o vento como "mal-humorado", o poeta abre espaço para uma multiplicidade de impressões, que uma expressão mais lógica não permitiria.

ANTÍTESE
Contraposição de palavras de significação contrária, evidenciando o contraste entre duas ideias.
É tão triste este meu presente estado
Que o passado por ledo estou julgando.

Nestes dois versos de Camões encontramos dois pares antitéticos:
Triste/ledo (alegre)
presente/passado.

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ANALEPSE
Processo narrativo (também designado por flashback) que consiste no relato de acontecimentos anteriores ao presente da acção e mesmo em alguns casos anteriores ao seu início.

Exemplo: No ano passado, passei férias com a família na ilha do Sal.

ANÁSTROFE.

Inversão da ordem natural dos elementos da frase. Não obscurece o sentido do pensamento, como pode suceder com o hipérbato.
Exemplo: "No rigor da verdade, estás pintada, No rigor da aparência, estás com vida". (Gregório de Matos).

HIPÉRBATO
Consiste na alteração da ordem normal das palavras no interior da frase. Geralmente leva à colocação do complemento do nome antes do nome ou do complemento directo antes do verbo.
Dentro da inversão é costume distinguir hipérbato (a inversão envolve toda a frase) de anástrofe (a inversão afecta apenas um determinado sintagma).
Aquela triste e leda madrugada
Quero que seja sempre celebrada.
Luís de Camões
Nestes versos de Camões, a ordem directa seria "Quero que aquela triste e leda madrugada seja sempre celebrada."

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ALTERNÂNCIA.

Técnica narrativa que consiste em contar duas ou mais histórias de maneira intercalada, de forma que ora se narra uma ora outra.

ANACOLUTO.

Interrupção do membro inicial de um período para formar outro, de acordo com um novo pensamento que com o primeiro se cruza, exigindo uma construção sintáctica diferente.
Essa possibilidade é, por vezes, intencionalmente utilizada na linguagem literária para obter efeitos expressivos.
Exemplo:
Vereis este, que agora pressuroso,
Por tantos medos o Indo vai buscando,
Tremer dele Neptuno, de medroso.
Luís de Camões
Nestes versos de Camões, é visível a alteração da estrutura lógico-gramatical (Vereis este (...) tremer dele Neptuno). Se prestarmos atenção, verificamos que o complemento directo "este" é substituído por outro ("Neptuno"). De facto, o "vereis este..." dá lugar a "vereis Neptuno..."

ANÁFORA.

Repetição da mesma palavra ou de palavras no início de versos ou frases sucessivos, visando-se, pela insistência, a intensidade.
Exemplo: "Um mover de olhos, brando e piedoso, sem ver de quê; um riso brando e honesto, quase forçado; um doce e humilde gesto " (Luís de Camões).

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É a Repetição frequente dos mesmos sons consoantes em um ou mais versos.
Exemplos: "Deita o lanço com cautela. Que a sereia canta bela. Mas cautela, ó pescador!" (Almeida Garrett);
"Foste colher a um granzoal azul de grão-de-bico. O ramalhete rubro das papoulas" (Cesário Verde).

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Sucessão de metáforas ou comparações através das quais realidades abstractas são concretizadas. Por meio desta figura, uma realidade abstracta, e por isso de mais difícil apreensão, é substituída por, ou comparada com, uma realidade mais concreta i, portanto, mais compreensível.
Por esse motivo, a alegoria é uma figura de estilo com uma dimensão textual invulgarmente extensa; por vezes abrange a totalidade de uma obra literária: é o que acontece, por exemplo, no Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
Exemplos: Auto da Alma, Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente; o conto "A Viagem", de Sophia de Mello B. Anderson. Sermão de Santo António aos peixes, de Padre António Vieira

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